sexta-feira, 24 de junho de 2011

(resenha/livro)
Lucíola





"Um dos mais polêmicos romances de José de Alencar, Lucíola conta a história de um jovem de família tradicional que se apaixona por uma ex-prostituta."







Spoiler à vista

Li mais uma das leituras obrigatórias da UFRGS esses dias. Foi “Lucíola” de José de Alencar. 
Para começar, tenho que dizer que a escrita deste livro é basicamente como a de outras literaturas brasileiras. De certa forma complicada, rebuscada, e de concordância mais elegante, relembrando tempos mais clássicos de nossa cultura. Porém, não é algo que impeça o entendimento da história, de maneira alguma.

O livro na realidade é uma carta, escrita por Paulo, contando sua própria história após conhecer uma dama chamada Lúcia. – ainda não sei por que o livro chama-se Lucíola se o nome da moça é Lúcia... Enfim. – Ele escreve esta carta direcionada para uma mulher, que apenas ao final da história é revelada.
Paulo conta ter se apaixonado por Lúcia quando a conheceu, descreve a maior parte dos encontros entre eles. Também elucida-nos sobre a verdadeira vida de Lúcia, a de uma “garota de programa”, vendendo seu corpo para quem mais der por ele. Porém, no final do livro é revelado o verdadeiro motivo que levou Lúcia a ser o que era. E digo-vos que este motivo me chocou completamente, fazendo-me sentir angustiada pela trágica história que ela protagonizou.

“Desde que os meus véus se despedaçaram, cuidei que morria; não senti nada mais, nada, senão o contato frio das moedas de ouro que cerrava na minha mão crispado. O meu pensamento estava junto do leito de dor, onde gemia tudo o que eu amava nesse mundo.”

Algo que me encantou plenamente é que Lúcia tinha total repúdio pela forma como levava sua vida. O motivo que a fez chegar até ali era nobre, mas a fazia sentir-se enojada, impura. Quando Lúcia conheceu Paulo e dormiu a primeira vez com ele, ela se apaixonou, e desde então não dormiu com nenhum outro homem até o dia de sua morte. Achei linda esta atitude dela, a de largar a vida suja que levava e tornar-se um ser cálido e puro perante o homem que amava. Só lendo para poder absorver plenamente esta sensação.
O que Lúcia consegue passar-nos de pureza – mesmo isso parecendo contraditório – Paulo consegue nos passar de desprezo. Ele demonstra em diversas passagens do livro que desconfia de Lúcia, mesmo ela sendo completamente fiel a ele. Também mostra ser um homem muito orgulhoso, que preza pela reputação acima dos sentimentos. Tanto é que por diversas vezes praticamente obriga Lúcia a fazer certas coisas, pelas quais ele a culpa depois. Mas o que ele queria? Ele que disse para ela fazer essas coisas. Como pode simplesmente jogar na cara dela isto? Ele é hipócrita e insensível, por querê-la apenas se for para seu prazer, apenas se ele puder a possuir a hora que bem entender. Não a aceita como uma amiga que necessita de acalento, e que busca a santidade da alma. Não a aceita como uma mulher que deseja voltar a ser ingênua e inocente.
Felizmente, ao descobrir o início conturbado da vida de Lúcia, e o motivo que a tornou prostituta, ele muda seus princípios. Sente-se culpado por tê-la julgado várias vezes e por não ter respeitado o desejo dela, de ter uma nova vida, livre de pecados.
O final da história é trágico, com a morte de Lúcia e a dor de Paulo por tê-la perdido.

“Relendo-o [o manuscrito/carta que escrevia], admirei como tivera a coragem de alguma vez, no correr desta história, deixar a minha pena rir e brincar, quando o meu coração estava ainda cheio de saudade, que sepultou-se nele para sempre.”

E a propósito, a mulher para quem esta carta estava sendo escrita era... Lúcia. Na realidade Paulo escrevia para o espírito dela, esperando que ela pudesse saber, após a morte, os verdadeiros sentimentos dele, aqueles que ela não pôde decifrar enquanto estava viva.

“– Nunca te disse que te amava, Paulo!
- Mas eu sabia, e era feliz!"

4 comentários:

  1. É por tudo isso que eu quero ler esse livro! *-*

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  2. A obra se chama Lucíola em razão da existência de um prefácio que muitas edições não trazem. Neste prefácio, escrito pela destinatária das cartas de Paulo, a senhora GM, a justificativa para o título da obra está associada a um comparativo que GM faz de Lúcia em relação a variedade de vaga-lume que povoava o RJ na primeira metade do século XIX. Alguns críticos analisam esta escolha de Alencar pelo fato de Lúcia brilhar na corte, mas se apagar com a relação amorosa estabelecida com Paulo; outros falam da luz que ela emanava na escuridão de uma sociedade machista e preconceituosa, por meio do amor verdadeiro que a devolve a condição de pureza, não carnal, obviamente, mas de alma.

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  3. Tom,

    muito obrigada por este esclarecimento. (: realmente, no livro que li não havia tal prefácio. Agradeço sua boa vontade em me explicar isto.

    Abraços (:

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